O coelhinho que queria dormir


Hoje, eu escolhi tratar do livro O Coelhinho que queria dormir, do terapeuta sueco Carl-Johan. A obra, sucesso de vendas nos EUA e Inglaterra, foi lançada no Brasil pela Companhia das Letrinhas. Eu lhe dou um doce se adivinhar o segredo de tamanho sucesso?!

O livro promete, já na capa, "uma nova maneira de fazer as crianças dormirem". Que pais, neste mundo, não querem que seus filhos peguem no sono em menos tempo, sem trabalho? Eu, como mãe de duas meninas, uma, de dois anos e outra, de 4, sei que a hora de dormir, muitas vezes, é um momento exaustivo para os pais. Sendo assim, chegar a uma livraria, no setor infantil, e encontrar um livrinho simpático lhe prometendo fazer seu filho dormir é um oásis.

A história é de um coelhinho, o Roger, que tinha sono, mas não conseguia dormir. Alguém tem um coelhinho assim em casa? Olhem a carinha dele, com os olhinhos bem abertos!


Ele ficava pensando nas brincadeiras, no balanço e nada de dormir. Sua mãe lhe propõe encontrar o Senhor dos Bocejos, alguém capaz de fazê-lo pegar no sono. No caminho, ele encontra o "Caramujo Dorminhoco" e a "Coruja dos Olhos Pesados", personagens que dão a Roger dicas para dormir. No fim, o Coelhinho chega à casa do Senhor dos Sonhos. Vejam a inscrição na pedra! Quando sai de lá, sai quase dormindo.


​Para o autor, essa historinha foi escrita a partir de técnicas de relaxamento e funciona como um modo encantador de indução ao sono, um "embalar" a criança até que ela durma. Mas olha o detalhe: "Para melhores resultados, recomenda-se ler a história depois de a criança gastar toda a sua energia e quando ela estiver deitada em sua caminha, de preferência sem olhar as ilustrações. A forma como o conto vai ser narrado também é importante". Piada, gente! Faltou dizer que se seu filho não dormir, você que não foi suficientemente competente para fazer a leitura de forma efetiva, como manda o terapeuta. E que ser humano não pega no sono depois de gastar toda sua energia?

Ao me deparar com esse livrinho, lembrei-me de 44 cartas do Mundo líquido moderno", de Zygmunt Bauman. No capítulo "Remédios e doenças", o autor menciona que "para todo desconforto causados pelos problemas e atribulações normais da vida cotidiana, existe( deve haver, haverá) um remédio comprável na farmácia mais próxima". Parece agora que já há um remedinho na estante da livraria.

Ontem, estive na Livraria Cultura e comprei O Coelhinho que queria dormir, já desconficava que se tratava de uma " galinha dos ovos de ouro" para o autor, mas queria saber como essa obra atuava para contar aqui a minha experiência. Tive dó de pagar quase R$30,00, afinal de contas, havia livros melhores para eu comprar para as minhas filhas.

Cheguei em casa, não demorou muito, era hora de dormir, minhas filhas estavam exaustas. Coloquei-as na cama e comecei a ler o tal coelhinho. Meu Deus, que livro horrível! É uma história cheia de bocejos( você tem de bocejar), com repetições, como se estivesse contando carneirinhos, cheia de gerúndios, enfim, nada criativa.

No primeiro minuto de história, a Marina, minha filha de 2 anos, fugiu da cama. A Luíza continuou a ouvir e no fim dela, dormiu. Mérito da obra? Não, ela sempre dorme depois das histórias. Só que dessa vez foi diferente. Ela dedilhava as páginas do livro, como se quisesse que a história acabasse logo e, durante a leitura, perguntou-me inúmeras vezes por que eu bocejava tanto e por que eu falava o seu nome( O autor pede para falarmos ao longo da leitura, o nome da criança) se não tinha a letra L escrita. Pediu três vezes para eu mudar de história. Eu não mudei e ela disse: "Que Coelhinho chato!"

Como muitos já sabem, leio TODOS os dias para as minhas filhas e a hora da história é mais do que um momento que antecede a hora de dormir, é a hora do aconchego, da ternura, a hora em que minhas filhas se identificam com algumas personagens e situações, recusam a se assemelhar com outras, aprendem, superam seus medos. A Literatura, ao colocar personagens, seres de papel, vivendo na frente do leitor, consequentemente, leva-o a viver aquele mundo que se conta na história daquela noite.

Na vida de todo adulto de hoje, houve uma criança que, naturalmente, não queria dormir, pois é da natureza das crianças preferir brincar. Sendo assim por que dopar as crianças de hoje com um livro-remédio que em nada as ajuda a crescer emocional e criativamente?

Leia para uma criança, construa um ritual de leitura- sono-sonhos! Mas com Literatura de qualidade.

Daqui a pouco faltarão espaços nas estantes das livrarias com tanta literatura-remédio. Que você livre seus filhos disso.


Até a próxima!!!

#Ocoelhinhoquequeriadormir #CarlJohanForssenEhrlin

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Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Regiane Boainain 

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