No fim de um lugar



No fim de um lugar


No fim de um lugar

você veio ficou de pé

no espinheiro pedrento do rochedo

e se atravessava uma coisinha branca na voz.

Eu fui na garupa

com os frios da noite

por cajus amarelos

debruçados à cerca.

Em torno fazia um pássaro

que seu canto finge com águas...

Você se beiradeava.

Eu me escorei o rosto nos silêncios.

Fui buscar um gosto leve

naquilo árvore

naquilo casa-de-pássaros.

- Você me esperava?

Que outra era esperada

no recanto do meu abandono

Quando não vinha você

naquele lugar de minha mão?

Eu não sei bem o que houve

no fim desse lugar

pois andou nele a raiz

de uma voz que crescia na relva dos peixes.

Crescia teu lábio

essa voz úmida que me buscava

sobre os cascalhos verdes

junto de outro corpo.

Eu andava com meus dedos

a colher outros frutos raros...

Por que você já não vinha

malhar sob os meus galhos?

Não espiei contudo

quem escorria de mim outrora.

Ervinhas subideiras

trepavam de meu casaco.

Agarrado aos muros

ainda a brotar esta flor de sonho

um pouco do meu rosto

ficou eivado desse lugar...


BARROS, Manoel de. In: Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

#Nofimdeumlugar #ManoeldeBarros

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Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Regiane Boainain 

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