Resenha crítica


Sugestões para a elaboração de uma Resenha Crítica

A resenha crítica é um texto que fará uma apreciação ou análise sobre uma obra literária, filme, espetáculos ou algum produto cultural.

Para fazer uma resenha crítica, é muito importante que você tenha muito conhecimento a respeito da obra em questão para que não construa nenhuma análise que traga desconfiança ao leitor.

Geralmente, o leitor de uma resenha crítica é aquele que gostaria de saber um pouco mais sobre uma obra para ver se, realmente, vale a pena apreciá- la. Por isso, é muito importante localizar esse leitor em relação à trama, ao autor da obra em questão e às características do gênero.

Além disso, você deve construir uma tese (ponto de vista) muito clara no começo do texto para direcionar a sua análise com argumentos convincentes no decorrer do texto.

A seguir, vamos conhecer um conto, de Machado de Assis, para realizar uma resenha. Vamos ler?

Um Apólogo

Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, p. 59.

Abaixo, daremos algumas sugestões para a elaboração de uma resenha crítica dentro do formato escolar.

a) Seu primeiro parágrafo deve conter nome do autor, nome da obra, gênero textual da obra, ano de publicação, ou seja, toda a ficha catalográfica. Você deve elaborar uma tese muito clara e bem elaborada no começo do texto. Para elaborar a sua tese, você deve pensar naquilo o que mais chamou a atenção na obra. Daremos, a seguir, algumas possibilidades de construção de tese.

I- “Esse texto, de Machado de Assis, é o que apresenta a linguagem mais acessível do autor, pois apresenta um vocabulário infantil realizado por meio de diálogos rápidos e construções simples”.

II- “Esse texto, de Machado de Assis, é o mais contemporâneo do autor, pois apresenta uma crítica à nossa condição humana que se estende até os dias atuais.”

III- “Esse texto, de Machado de Assis, é aquele que mais apresenta uma linguagem infantil, pois é construído em um formato de fábula, com linguagem atraente ao público infantil pela personificação das personagens.

Também é muito importante que você insira as características desse autor para que o leitor tenha acesso às peculiaridades escriturais dele. Podemos citar como exemplos: a ironia, a crítica à sociedade da época, as reflexões sobre a condição humana, a conversa com o leitor...

b) No seu segundo parágrafo, você pode apresentar o resumo da obra de uma maneira interessante, atrativa, mas que não traga o desfecho. Retire fragmentos da obra para deixar mais atraente a sinopse.

Você pode utilizar dois argumentos muito interessantes para defender a sua tese dentro da resenha. Daremos, a seguir, duas sugestões.

c) No terceiro parágrafo, você pode trabalhar com um argumento de valoração. Nele, você dará crédito à sua tese com apreciações de juízos de valor. Aqui, você pode realizar comparações diversas (linguagem, crítica à sociedade, ironia, sadismo...) entre textos do mesmo autor ou, até mesmo, sobre situações da atualidade. Esse argumento deve citar exemplos, comparando- os. Pode ser por meio de textos do mesmo autor, como já dito, ou por meio de textos de outros autores também. Essas comparações também podem ser feitas no decorrer do texto inteiro, pois elas ajudam a justificar a sua tese. Retire fragmentos do conto em questão para reforçar a sua análise.

d) No quarto parágrafo, você pode trabalhar com um argumento de autoridade (citação direta ou indireta) de um especialista ou crítico sobre o assunto tratado. Nesse caso, coloque o nome inteiro dele e a sua formação acadêmica. Depois, faça uma análise bem feita a respeito dessa citação com o intuito de reforçar a tese que você está defendendo. Aqui, você também pode retirar fragmentos das falas dos personagens para sustentar a sua análise.

As estratégias argumentativas são importantíssimas. Vamos a elas?

e) Não é errado utilizar a primeira pessoa do discurso em uma resenha crítica, mas o uso constante da primeira pessoa pode fragilizar o seu discurso. Uma ideia para dar mais credibilidade à sua linguagem argumentativa é utilizar a terceira pessoa do discurso. Ela vai ajudá- lo a impessoalizar as suas ideias, dando um aspecto mais formal a elas.

f) No quinto parágrafo, você pode trabalhar com uma contra- argumentação em relação à sua tese. Seguem dois exemplos.

I- “O texto em questão é uma das obras mais contemporâneas do autor, mas o seu formato é fabular, ou seja, o seu formato é antigo, com apresentação de personagens personificadas e lições de moral edificantes.”

II- “O texto apresenta a linguagem mais ingênua do autor, talvez a mais acessível, mas a sua crítica é muito reflexiva e exige muito repertório do leitor.”

A sua contra- argumentação deve ser bem elaborada, mas no final do mesmo parágrafo, você deve trazer o leitor para a razão de sua tese. A ideia é fazê- lo perceber que você tem um olhar panorâmico para a obra. Além disso, comprovar que esse contra- argumento não invalida a tese defendida, muito pelo contrário, flexibiliza o seu discurso.

Finalizar bem é garantir o sucesso de sua argumentação!

g) O último parágrafo é o desfecho. Nele, você deve retomar a ideia principal da tese, reforçando- a. Além disso, você pode trazer reflexões ao leitor referentes aos ganhos que ele terá ao ler esse conto. Por exemplo: quais vantagens ele vai adquirir ao ler esse texto? O que ele aprenderá? Você também pode fechar o texto com uma citação de algum personagem para finalizar a análise.


Um abraço e bons estudos!

Karina

#Resenhacrítica #Propostapararesenhacrítica

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Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Regiane Boainain 

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