Vidas Secas


Publicada em 1938, a obra "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, foi uma das novelas mais consagradas dentro de nossa literatura.

Em Graciliano, temos sempre a obra explicando o homem e as suas variantes psicológicas. Aproximando- se com a identidade de sentimentos humanos, impiedosamente, a autor deflagra de forma escancarada as misérias humanas tal qual Machado de Assis, que as relativiza por meio de suas ironias.

As personagens são construídas e inseridas dentro de uma filosofia do nada, da negação e da destruição, caminhando por vias que se projetam ao seus vazios existenciais. Os personagens apresentam um não lugar no mundo. Podemos perceber isso em Vidas Secas pela movimentação da família de Fabiano em busca da sobrevivência. Um nomadismo forçado pela rejeição de seu próprio país, uma busca incessante por esse não lugar, que se torna o seu inferno.

O livro foi escrito em terceira pessoa, diferente de outras obras do autor. A onisciência predomina a escritura a ponto de trazer uma identificação do autor com a história dos personagens, de acordo com Álvaro Lins. O discurso indireto livre, evidenciado pelas expectativas dos personagens, remete- nos à leitura de um texto seco, um texto em que as palavras são privadas pela seca e pela escassez de afeto. Isso ocorre porque o protagonista da obra se faz pela ambientação, pela própria seca que seca as expectativas, a fala e os sentimentos dos personagens. O ambiente inóspito que envolve os personagens representa o espaço psicológico dos mesmos. A escritura também é reflexo de uma secura avassaladora, pois há o evidente exercício da palavra enxuta com minúsculos diálogos.

Os capítulos são escritos e publicados de forma avulsa no início. Depois, o autor os reuniu para compor a obra. Temos um capítulo dedicado ao psicológico de cada personagem, evidenciando uma cisão na perspectiva narrativa.

Interessante notar que a há uma aproximação quase que a mesmo nível entre o ser humano com o animal em algumas descrições de Fabiano e da cachorrinha Baleia. A cachorrinha apresentava um grau de humanidade que, muitas vezes, não encontramos nos personagens. E Fabiano, quase sempre, um bicho. "Você é um bicho, Fabiano". Ser gente dava muito trabalho. Podemos perceber que, nesta obra, Graciliano atinge um de seus maiores estados de poesia.

De acordo com Hermenegildo Bastos, quando Baleia pensa ou projeta, vem por meio de representações de juízos de valor do próprio narrador. Além disso, baleia é um locus de muitas falas e silêncios onde se encontram vários sujeitos de enunciação, transmitindo a universalidade dos derrotados e excluídos.

Dentro da linguagem de Graciliano, a arte busca o silêncio, a obra se desenvolve por meio de uma negativa, de uma ausência de si mesma. Comprovando a ideia de que a linguagem se evapora no sertão.

Fica a dica.

Um beijo da vereda Ká.


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Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Regiane Boainain 

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