Barbazul, de Anabella López


Os contos de Perrault sempre me chamaram a atenção. Entretanto, o Barba Azul mostrava-se ainda mais atraente. Apesar de não ser, no Brasil, o personagem mais conhecido da grande variação de seres que passeiam pelos bosques ou castelos dos contos maravilhosos, Barba Azul, de Charles Perrault, é fascinante por abrir portas para se pensar na mentalidade da época e o que isso respinga na condição da mulher atual.

Assim como a esposa, que descobre o seu lugar iminente ao abrir a sala proibida, a leitura desse conto me é bastante epifânica, pois permite repensar o lugar, historicamente, deixado à mulher. É impossível não se horrorizar com a inversão do conto de Perrault. Como tamanha violência pode ser “justificada” na moral por um comportamento “impróprio” da mulher? Silêncio, obediência e passividade eram os ensinamentos do conto?

Quando encontrei Barbazul, de Anabella Lòpez, nas estantes da livraria não me contive e trouxe para casa.


Publicado pela Editora Aletria, Barbazul, de Anabella López, já na capa marca uma diferença em relação ao Barba Azul, de Perrault. É impossível o leitor não se deparar com a aglutinação da vogal a em Barbazul. Consequentemente, torna-se impossível também não se questionar a respeito da ligeira, porém perceptível, mudança no título: Que mudanças guardariam as páginas desse conto que fazem jus ao título modificado? Seria o caso de o leitor estar diante de uma nova velha história?

Uma nova velha história

Anabella López manteve a mesma estrutura do conto maravilhoso de Perrault. Entretanto, ao final, acrescentou um elemento novo, marcando uma diferença em sua obra. Veja a imagem.


Trata-se de uma espécie de memorial, erguido pela esposa, dedicado a todas as mulheres que, assim como a última esposa, não aceitaram a submissão e a obediência, adentrando a porta proibida que, no conto, simboliza morte e libertação.

"Dentro dos jardins gelados que rodeavam suas terras, a mulher enterrou as outras esposas do Barbazul para que suas almas descansassem em paz.

Junto do túmulos plantou centenas de flores vermelhas, para que todos se lembrassem delas para sempre. "

( LÓPEZ, 2017)

O fragmento acima, quando unido à força da imagem de Anabella, evidencia ainda mais o tom de homenagem às mulheres mortas por Barba Azul.

Outro aspecto que justifica o conto figurar como uma nova velha história é a intromissão de elementos, que aparecem antes do texto propriamente dito. Antes da leitura, a dedicatória que, convencionalmente, é um elemento extratextual; no conto, ganha um tom de “profissão de fé”, já que ela soa como um manifesto, encorajando as mulheres a trilharem a “longa viagem”, que é lutar contra todas as formas de opressão.

Se no trecho de Lao Tsé, que abre a dedicatória, as pistas ainda eram bastante veladas, na segunda parte do texto, dedicado “para todas nós, mulheres”, o leitor atento perceberá que está diante de uma narrativa que dessacraliza a moral de Perrault ao encorajar as mulheres a avançarem a “porta proibida”, cuja proibição, muitas vezes, é antecedida de ameaças. Por esse motivo, a porta ebanizada, que abre o conto, também pode ser interpretada como um esquife. Veja:


Cabe mencionar aqui a representatividade da chave no conto de Barba Azul. Ela aparece como uma força mágica, já que, após abrir a porta proibida, nada a faria calar, indicando ao marido a desobediência da mulher. Em Barbazul, essas informações aparecem no texto escrito, entretanto, é com a imagem, que Anabellla apresenta um elemento novo em seu conto.



Anabella escolheu marcar a chave mágica, “violada pela desobediência da esposa”, não com sangue indelével, mas com um olho aberto, que representa a consciência de um personagem se abrindo para o conhecimento da verdade. Sendo assim, uma vez essa verdade revelada, é impossível voltar ao modelo anterior. É a mesma mulher, sendo outra

Enfim, Barbazul, de Anabella López, é uma nova velha história, já que apesar de manter a mesma estrutura de O Barba Azul, de Charles Perrault, subverte a proposta moralizante do escritor francês e instaura uma nova moral, contrária à submissão, obediência e passividade.

Nessa obra, a chave para adentrar a liberdade é a mulher ter consciência de que é preciso ter coragem para percorrer uma longa viagem, que é não aceitar o lugar ao rés do chão que, historicamente, foi dado à mulher.

Barbazul, publicado pela Aletria, recebeu o Selo Cátedra UNESCO de leitura, da Puc- Rio.


Eu fico por aqui.

Grande beijo!

Regiane Boainain

LÓPEZ, Anabella. Barbazul. Trad. Susana Ventura. Belo Horizonte: Aletria, 2017.

PERRAULT, Charles. “Barba Azul”. In: Histórias ou contos de outrora. Trad. Renata Cordeiro. São Paulo, Landy Editora, 2004.


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Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Regiane Boainain 

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