Memória e Sociedade: lembranças de velhos


Ontem, bem tarde, terminei de ler na íntegra a belíssima obra de Ecléa Bosi: Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. Sou outra!


Recorrendo aos estudos de Halbwachs, Bartlett e Bergson( dele só conhecia a teoria do tempo), de Beauvoir (sobre a condição do velho) e de Benjamin (sobre o narrador), a autora escuta as lembranças de velhos de São Paulo. Cada relato belíssimo! Em muitos, até se percebe um brilho poético.

Aprendi muito sobre memória neste livro. E todas as leituras literárias feitas agora passam a ter outro sentido para mim. Lembrar está enraizado nas relações do indivíduo com as instituições sociais. Por isso que nas memórias de qualquer um sempre aparecem a família, a classe social, a escola, a profissão, a religião, o partido político. E, claro, a memória histórica.

Acerca do caráter social, podemos pensar o quanto a memória do indivíduo depende das palavras dos outros, das histórias lidas ou contadas. A presença do outro ( em fala ou em escuta) permite que encontremos a nossa inteireza. Só somos porque existe uma linguagem, cujos significados são constituídos socialmente. Sendo assim, nossas memórias nunca são exclusivamente nossas. apesar de parecerem tão individualizadas.

"É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou mesmo de nossas ideias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham nossa vida e são enriquecidas por experiências e embates. Parecem tão nossas que ficaríamos surpresos se nos dissessem o seu ponto de entrada exato em nossa vida. Elas foram formuladas por outrém, e nós, simplesmente, as incorporamos ao nosso cabedal. Ma maioria dos casos creio que este não seja um processo consciente"( Eclea Bosi)

Isso me fez pensar que se ouvirmos ou lermos em um livro "Era uma rua com árvores a perder de vista". Essas palavras, assim postas nesta ordem, têm um significado na coletividade. Entretanto, a imagem que o leitor vai criar dessa " rua com árvores a perder de vista" passa a ser a rua individual, cuja imagem está guardada na memória do leitor, uma memória autobiográfica.

Enfim, "se ler é retomar a reflexão de outrém como matéria prima para a nossa própria reflexão, com o trabalho de Ecléa Bosi, pude refletir sobre a narração de lembranças como uma importante função social de todos na sociedade. Sendo impossível desvincular literatura de memória, fica evidente a necessidade de haver mais espaço para a literatura nesse nosso mundo.

Acho que já divaguei muito sobre minha leitura. Termino aqui com um fragmento que mostra a condição do velho na sociedade capitalista:

"Ser velho é sobreviver. Sem projeto, impedido de lembrar e de ensinar, sofrendo as adversidades de um corpo que se desagrega à medida que a memória vai se tornando cada vez mais viva, a velhice, que não existe para si mas somente para o outro. E este outro é um opressor".( Ecléa Bosi)

Será que o opressor tem noção de que será também velho um dia?

Obrigada por ler este post, cuja escrita foi tão pouco trabalhada.

Beijos!

Regiane Boainain


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Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Regiane Boainain 

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