Corisco



Corisco

Se não fosse Mamãe, eu nunca teria Corisco, pois papai não gostava de cachorro de espécie alguma, porque, dizia ele, cachorro é bicho velhaco, só serve pra dar amolação e pra comer a comida da gente, e enquanto ele fosse dono da fazenda, ali nunca haveria de entrar cachorro, e se entrasse um, ele pegava a espingarda e sapecava fogo sem um tiquinho de dó. Por isso, quando ele veio descendo o pasto de tardinha, eu fiquei com medo, mamãe escondeu corisco, que era pequeno, no cesto de roupa suja, e disse pra mim você não fala nada, deixa que eu falo, e eu fui esconder detrás da porta da despensa.

Papai entrou batendo os pés como sempre fazia, pra sacudir as poeiras das botas, pendurou o chapéu na parede, depois deu um tapinha nas costas de Mamãe, falando com voz grossa ê filha, o serviço de hoje esteve puxado, e batia a mão na barriga, espiando as panelas de comida enquanto contava casos de bois acontecidos lá no retiro, e então parece que ele reparou no silêncio de mamãe e falou um pouco mais alto, mas daquele jeito que não era bravo, quê houve, filha, você não fala nada, engoliu a língua? Aí mamãe soprou o fogão, pingou caldinho de sopa na mão, provando o tempero, e sem olhar pra trás, pra Papai, disse que meu aniversário estava perto e pensava em me dar um presente, quê que ele achava da ideia, e papai, sacudindo a cabeça disse que também pensara nisso, mas não tinha ideia do presente, isso era melhor ela escolher, mulher é que entende dessas coisas. Então Mamãe disse que já tinha escolhido, era uma coisa que eu sempre desejara e ia ficar contentíssimo de ganhar, vamos ver se você adivinha quê que é, mas quando ela falou assim, Corisco de uma choradinha no cesto, ela baixou a cabeça, Papai fechou a cara e, sem dizer nada, saiu pro terreiro. Eu saí detrás da porta, de onde vira tudo, e Mamãe, me passando a mão na cabeça, disse seu pai é duro, e engoliu fazendo barulho, e virou pra soprar o fogão outra vez.

No outro dia ela me disse que tinha dado um jeito e que corisco não ia embora, mas eu não falasse nada com Papai, e eu não falei, e três dias depois, no meu aniversário, ele me deu um abraço apertado e um canivete de cabo de osso, dizendo toma um presentinho de seu pai, e não falou nada sobre Corisco.

Corisco não foi mesmo embora, e com sete meses já estava grande e bonito, o pêlo pretinho de alumiar e as patas brancas, e, era engraçado, parecia que ele tinha medo de sair pra longe, porque ficava o tempo todo em frente ao alpendre, espichado com cabeça entre pata e as orelhonas arrastando no chão, dormindo ou espiando com preguiça os currais, não levantando pra nada, nem mesmo quando Papai voltava de tardinha do serviço e, em vez de tocar ele dali, passava por cima, nem olhando, como se Corisco nem existisse, pois era assim, parecia que Corisco não existia pra ele, nunca falava nele, nem mesmo quando Corisco pegou aquela mania de acompanhar ele ao retiro.

Toda tarde, quando os pássaros- pretos começavam a cantar no arrozal e ia escurecendo do lado da serra, eu trepava na porteira e, espichando a vista até onde podia, ficava esperando Corisco, com medo de Papai ter feito alguma coisa com ele, e quase pulava de alegria quando via ele aparecendo atrás da poeirinha que o cavalo de Papai fazia. Ele sempre vinha atrás, mas, na hora de abrir a porteira, passava na frente, passava por baixo e ia pro alpendre, ficando deitado na porta, resfolegando com a língua comprida e vermelha de fora, só depois é que ia pra varanda beber água.

Uma vez ele voltou mais cedo e sozinho, e, em vez de ir pro alpendre, foi descendo o terreiro, com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. Eu estranhei e falei com mamãe, e nós fomos ver o que era e encontramos ele lá no paiol, enrolado num cano, o olhar triste. Passei a mão na cabeça dele, mas ele não abanou o rabo, nem ligou, e Mamãe falou é capaz de ser doença. No jantar não falamos nada sobre o assunto, mas de noite fiquei com dó dele e chamei Mamãe pra ir lá de novo. Papai estava sentado no alpendre, fazendo um cigarro, e quando vu nós dois, não falou nada, mas ficou olhando pra Mamãe, depois continuou a picar o fumo. Corisco estava do mesmo jeito, enrolado feito cobra, sem ligar pra gente. Ele não está nada bom, Mamãe falou, e eu comecei a chorar, e ela falou não chora não, vou falar com seu pai pra comprar remédio.

Ele ainda estava no alpendre fazendo o cigarro, e ao ver mamãe, embolou tudo e jogou fora e perguntou com voz seca o que era, e ela falou que era o Corisco, estava doente e precisava de remédio, então ele falou que não tinha nada a ver com isso, e eu corri pra ele, chorando e pedindo pra ele deixar de ser ruim e ter dó de Corisco, e ele falou era só o que faltava, chorar por causa dum bicho, e então eu fui chorar no quarto.

Na manhã do outro dia Sô Tuti chegou do retiro com um embrulhinho, dizendo que Papai que tinha mandado. Mamãe abriu, e era remédio pro Corisco. Nós demos, mas não adiantou nada, ele continuava triste e tinha começado a vomitar uma baba amarela, e de tarde ouvi Mamãe falando com Papai, que voltara do serviço mais cedo porque estava com dor de cabeça, que pelo jeito o cachorro não escapava.

Foi de tardezinha que Corisco morreu. Começou a torcer o pescoço e a gemer, depois quietou, e eu chamei baixinho Corisco, Corisco, mas os olhos dele só olhavam pra frente, e parecia que ele não estava escutando mais. E então esticou as pernas e abriu a boca, que foi fechando devagar, e uma baba escorreu dela. Coitado, mamãe falou, e eu não consegui segurar o choro.

No jantar ela falou o Corisco morreu, e Papai, tomando uma colherada de sopa, falou sei, e limpou a boca e não falou mais uma palavra, e mamãe, vendo que ele não queria comer mais, perguntou o que era, e ele falou que era aquela dorzinha de cabeça aborrecida.

Tudo voltou a ser como antes, eu brincando com os meninos da fazenda, mamãe cozinhando, Papai trabalhando, e era como se Corisco nunca tivesse existido, pois ninguém falou mais nele, só uma vez, uma noite em que havia desaparecido mais uma galinha, e então Mamãe falou que, se Corisco ainda estivesse vivo, aquilo não teria acontecido, e então Papai, levantando de repente, falou que nada, que cachorro era um bicho velhaco que só servia pra dar amolação e pra comer a comida da gente, ela não falasse naquilo, não queria mais saber daquela praga na fazenda, e foi até a janela e ficou olhando céu estrelado, e então Mamãe me cutucou a perna e eu olhei pra ele e vi ele enxugando uma lágrima.


VILELA, Luiz. In: Contos de infância e adolescência. São Paulo: Ática, 2007.

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Regiane Boainain 

Idealizadora do Veredas do Texto e criadora de conteúdo 

Mãe, professora, autora de materiais didáticos, doutoranda em Literatura e Crítica literária pela PUC-SP. 

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